17 junho, 2015

Enganaram-me e muito bem

   Para dizer a verdade, foi no final de agosto que me apresentaram a Amway.
   Não fazia a mínima ideia que existia tal empresa com tais produtos e tudo o que ouvi naquela noite achei uma coisa de outro mundo, parecia que me estavam a mentir.
   Pois não conhecia nenhuma empresa, até ao momento, que tivesse tanto sucesso, tantos cientistas, uma fábrica com tantos metros de comprimento, tantos produtos realmente biodegradáveis, tantas ajudas em parceria com a UNICEF. Não queria acreditar, não parecia verdade.

   Lembro-me de sair daquela sala com vontade de ir contar a meio mundo que existia uma maneira divertida de se ganhar dinheiro apoiando uma empresa com ótimos princípios. Mas pouco depois caí em mim e pensei "como pode ser verdade? Nunca ouvi nas notícias, muito menos uma publicidade daquelas marcas que se diziam tão conhecidas".
   Fui para casa pesquisar, pus-me a vasculhar o site de cima a baixo. Parecia ser real, no entanto decidi registar-me e depressa levei o meu pai para que me validasse se seria uma coisa fidedigna. Ele registou-se também. Fiquei com muito medo de que ele estivesse apenas a confiar em mim e no fim fosse uma farsa. Decidi continuar a investigar participando nos eventos sobre a empresa.

   E no fim de setembro, lá fui eu a uma conferência onde me explicaram de novo o negócio, mas desta vez haviam mais pessoas, muito entusiasmadas e bem-dispostas (algo estranho nos dias de hoje). O orador assustou-me um pouco com tanta energia, mas tocou-me com algumas frases que já tinha ouvido do meu pai. Pareceu-me ser uma pessoa igualmente ambiciosa como ele, que acredita nos seus objetivos e faz tudo para os atingir.
   Como ainda estava só numa de observar, não mostrei o meu entusiasmo aos que me convidaram, pois tinha medo de ser alvo de uma lavagem cerebral (não sei onde, mas lembro-me de ouvir falar sobre algo parecido e por isso fui com todas as minhas armas defensivas).

   Ora, quando saí fui ter com umas amigas que me questionaram sobre aquela noite. Tentei fazer o que me pediram, pediram-me para não ir contar onde estive pois as pessoas que não estão no projeto não entendem o que é e se me colocarem questões não saberei responder e vou-me tornar num alvo a abater para esses "amigos".
   Pois, mas o objetivo não foi conseguido, conseguiram adivinhar onde fui e fazer o quê. Eramos pelo menos cinco amigas naquela noite e nunca mais me esqueço da reação de três delas.
   A que adivinhou já tinha estado numa conferência com o mesmo orador, na mesma sala, mas tinha sido convidada duma maneira sinistra pelo gajo mais estranho da faculdade. Disse que os produtos eram bons mas que achou um ambiente muito estranho e que as pessoas não batiam muito bem. A minha reação: as tais pessoas que não batiam muito bem são como o meu pai, divertidas, acreditam bastante no que dizem, positivas e bem-dispostas. Por incrível que pareça, esta minha amiga adora o meu pai, só não sabe é que ele também desenvolve este negócio.
   A segunda a falar disse-me para ter muito cuidado com esse negócio de vendas pois é um esquema em pirâmide, que quem entra primeiro ganha muito com os novos que entram a seguir. Outras aproveitaram para falar mais coisas más sobre a Amway, já nem me lembro muito bem o quê ao certo. Mas apenas por ser minha amiga e querer o meu bem, gravei bem esta frase da pirâmide na minha memória para ter a certeza de que não iria ser enganada, mesmo depois de me terem explicado de que não se tratava de algo ilegal.
   A terceira esperou que todas falassem e ouviu-me dizer que apenas fui ver o que era, que não tinha entrado para coisa nenhuma e quando me fizeram a pergunta se tinha gostado respondi com "os produtos parecem bons". E então ela disse "se quiseres entrar entra, tu é que sabes o que fazes da tua vida e não tens de seguir a opinião dos outros". Fiquei muito mais aliviada :)
 
   Mais tarde contei à pessoa que me convidou a conversa dessa noite e então explicaram-me o porquê de ser muito normal em Portugal rebaixarem e falarem mal de quem experimentou o negócio da Amway.
 
   A pouco e pouco fui percebendo que aquelas pessoas estavam cientes do que estavam a fazer. Cada um com o seu emprego, faziam este negócio para deixarem os seus empregos e terem mais tempo livre, outros faziam-no por dinheiro e outros faziam-no porque toda a família está envolvida no projeto e não tinham qualquer desvantagem em fazê-lo.
   E pensei: se um arquiteto, uma técnica oficial de contas, muitos licenciados e outros estudantes estão a desenvolver este negócio, que mal me poderiam querer fazer? Não havia razão. Eram coisas da minha cabeça e da cabeça das pessoas que me rodeiam que não ouviram a oportunidade de negócio pela boca dos especialistas na matéria.
 
   Enganaram-me e muito bem...